Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



 

... e tinha logo de ser a minha Jane Eyre! (snif) Ainda não tinha dado por esta adaptação do Zeffirelli, e aconteceu por mero acaso, num dos canais da TVCine. Bem, a primeira parte ainda vá que não vá. A ida para o orfanato, todo aquele ambiente opressivo e infeliz, está muito credível. A Jane miúda é já, em protótipo, o essencial da Jane jovem mulher. Onde tudo se complica e perde verosimilhança, assim como se perde a complexidade e profundidade das personagens, é depois, a partir do encontro acidentado de Jane com Rochester, como explicarei lá mais adiante.

 

Já coloquei a Jane Eyre a navegar neste rio... uma das personagens femininas mais fascinantes, pelo menos para mim. Uma sobrevivente da aridez da ausência de amor, a maior solidão de todas. A própria autora, Charlotte Brontë, terá vivido essa solidão maior, segundo analistas das suas obras. Para mim, essa solidão é perfeitamente visível na personagem Jane Eyre: a sua timidez aliada a uma firmeza incomum, o seu ar frágil num corpo de criaturinha andarilha, a sua sede de estudo, o seu gosto pelo método e organização, o seu maior trunfo: a afirmação das mulheres num mundo de homens, as expectativas elevadas relativamente ao conhecimento filosófico e científico. A mulher afirma-se no mundo pelo seu trabalho intelectual, pela qualidade do seu trabalho intelectual.

A sua relação com a verdade é mesmo comovente, há essa coragem e autenticidade. Não recorre à sedução, nem a jogos de palavras. Diz o que pensa, mesmo que possa ser mal recebido. Rege-se por um código de valores, o respeito pela dignidade de cada um, é tolerante, o seu olhar não tem o filtro do preconceito. Outra qualidade sua: não é facilmente impressionável pela beleza ou pela riqueza. Não há esse deslumbramento pela ostentação ou pela superficialidade da grande burguesia ou de alguma aristocracia inglesa. O seu olhar é límpido e despojado, embora de uma capacidade de observação muito perspicaz. Sim, já deu para ver como esta personagem me fascina e me comove.

 

Mas não é nada disto que sobressai na adaptação de Zeffirelli. Ao realizador (encenador operático) só lhe interessam as desventuras de uma criaturinha abandonada à sua sorte num orfanato e posteriormente o seu encontro com o herói da fita. Em Zeffirelli não é só a personagem Jane Eyre que é descaracterizada e desmembrada, também o Rochester vai pelo mesmo caminho. Um William Hurt que não se sente nada à vontade naquela pele, deve ter sido mesmo o seu pior papel de sempre no cinema. E Rochester também é uma das minhas personagens masculinas preferidas.

Tudo bem, tudo bem, o Rochester original, o genuíno, é um homem de mau feitio, carrancudo, de poucas palavras, magoado com um passado que não o larga, que não o deixa viver em paz e livremente. Foi traído pela própria família e pela sua ingenuidade. Além disso, não é um homem atraente e se há mulheres a gravitar à sua volta é apenas pela sua riqueza.

Mas Rochester não é só isso: é permeável à verdade quando a vê. É sensível o suficiente para perceber que Jane Eyre é uma criaturinha rara e fascinante. O seu olhar não se fica pela superfície, se fosse assim não se interessaria por ela nem perderia tempo a ouvir a sua opinião. E no livro as suas conversas são cheias de intensidade, quase provocação, de uma procura mútua, de um tatear, de saber o que o outro pensa... no fundo no fundo, a construção segura de uma amizade.

 

É isso que Jane e Rochester nos revelam aqui: como se inicia e constrói uma amizade, a relação humana mais difícil de destruir. Que se baseia muito mais na alma do que na mente, na ternura do que na paixão, embora eles não sejam nada platónicos. Este aparente paradoxo, alma aliada a uma atracção, é aliás o mais interessante na sua relação. O que se vai construindo entre eles são laços indestrutíveis. Embora uma das suas afinidades seja a mental (ambos gostam de ler e de saber, há neles a curiosidade intelectual, abrir os horizontes), o que os une é muito mais forte: são como irmãos gémeos, separados à nascença, que se reencontram.

Outra manifestação dessa forte ligação (e aqui lembro a irmã Brontë, a Emily, a dos Monte dos Vendavais) é a sua comunicação à distância: Jane ouve-o chamar o seu nome e diz-lhe para esperar por ela. Mas Zeffirelli corta tudo o que é essencial para tornar tudo muito operático, retira-lhe a dimensão mais profunda.

 

E nem me referi ainda ao corte mais surpreendente de Zeffirelli: o desespero e a caminhada de Jane, depois da revelação mais trágica para si, até ser descoberta por um primo afastado e ter sido acolhida na sua casa onde vive com as duas irmãs: uma nova família para Jane, a sua única família como se irá descobrir depois. Salta também a sua experiência na reanimação da escola daquele lugar, pormenor fundamental para se perceber a personagem: Jane gosta de ensinar, vê a educação como a actividade mais nobre à face da terra, a que dá dignidade, a que pode melhorar a vida de alguém. E salta a relação possível com o primo, no plano do companheirismo missionário. Esse conflito interior é fundamental. É que Jane, tal como Rochester, não é um ser platónico. Amam com todas as células visíveis e invisíveis, terrenas e aladas. Concordo, já me entusiasmei.

 

E ainda não referi os actores. O William Hurt como Rochester, já o disse, um desastre. Tem de ser um actor inglês, ou vá lá vá lá irlandês ou escocês, ou até mesmo um australiano, mas um americano, por mais que tente entrar na pele de Rochester, não consegue.

A Jane Eyre - Charlotte Gainsbourg nem está mal de todo: fisicamente está mesmo perfeita para o papel. E bem dirigida podia ter-se revelado uma Jane muito credível, aquele ar triste, frágil, autêntico e afectivo é mesmo comovente. Deveria ter sido filmada a calcorrear caminhos e terrenos, esse lado andarilho da Jane tinha de ser evidenciado.

O encontro Jane Eyre - Rochester era ao fim da tarde, com nevoeiro, não se via quase nada. E Rochester foi rude e antipático com ela. Será assim ainda por muito tempo, suavizando as suas maneiras a pouco e pouco. Jane é a única que lhe fala de igual para igual, não se deixa intimidar por ele. Isso também não é evidenciado aqui. A casa é austera, talvez mais austera do que neste filme. Mas Jane sente-se em casa. Sim, Gainsbourg poderia fazer uma Jane melhor, se melhor dirigida.

A Mrs. Fairfax está perfeita. E a própria miúda, perfeita. Assim como a Billy Whitelaw - Grace Poole.

Já a Elle Macpherson - Blanche Ingram, não. Nisso os ingleses são muito exigentes, há uma fidelidade à época que querem retratar. E não é só vestir a fatiota da época, é a linguagem, a postura, os gestos.

E não é que não identifiquei a Maria Schneider no papel da Bertha, a louca? Só agora, ao verificar os nomes dos actores, é que a vi.

 

Bem, verdade seja dita, não é só Zefirelli a dar amolgadelas fatais em obras literárias. Destaquei esta porque foi meter-se precisamente com uma das minhas obras preferidas e duas das minhas personagens preferidas. Voltarei ao tema a propósito de grandes amolgadelas cinematográficas. E não é só em obras literárias, é nos remakes. Mas hoje falei do que me arrepiou: o Zeffirelli e a Jane Eyre.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 16:58

Razões que a razão desconhece - 2

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 03.06.10

 

Não o vi no cinema, esperei pelo DVD, ou que aparecesse nalgum dos TVCine. Sim, foi assim com este Benjamin Button, a que resisti até a curiosidade vencer. Razões desta resistência não as consigo identificar. Tinha registado dele as imagens em sépia, aquele rapazinho-velho entre talas, a erguer-se e a tentar caminhar. Isso foi na nomeação para os óscares de há 2 anos. Dos filmes nomeados destacam sempre a tecnologia e não a mensagem, a densidade da mensagem, a poesia da mensagem. E este filme revelou-se como uma das minhas mais incríveis descobertas!

 

O primeiro impacto: as pessoas comuns que são tudo menos comuns. A forma como valorizam o essencial. A forma como nunca ficam indiferentes aos outros que com eles se cruzam neste mundo, aceitando sabiamente o que a vida lhes vai revelando. Não é resignação, é outra coisa. Também não é propriamente rendição, é mais aceitação filosófica e tentar aproveitar o melhor de todas as possibilidades. Será essa a aprendizagem de Benjamin Button.

Outro impacto: a incrível poesia que o filme respira, levemente humorística (o raio que insiste em ser atraído por aquele homenzinho sobrevivente; o lado sombrio de um colega de trabalho no rebocador, chamado Grimm; o capitão que insistiu em ser quem era, um artista, não se conformando com o papel que o pai lhe impusera) e intensamente filosófica (a lealdade da amizade, a descoberta do amor, a superação da revolta, a aceitação do inevitável, a rendição final).

 

Este filme vem na linha poética de filmes dos anos 60, mas esta já é uma visão pessoal. Já me referi aqui a um filme que me deixou hipnotizada pela sua simplicidade poética: To Kill a Mockingbird. De como estes filmes dos anos 60 iniciam uma nova sensibilidade em cinema e que estarão na base de um Eduardo Mãos de Tesoura do Tim Burton, ou de um Forrest Gump, ou de um Benjamin Button. Uma nova sensibilidade na câmara, nos planos, nas personagens e nas sequências, na acção, nos diálogos e nos silêncios. Estes filmes vivem muito de silêncios. E as frases são de uma enorme densidade.

Sim, os silêncios. Que aqui são silêncios vivos, sentimo-los como uma atmosfera que vibra. O segredo: a autenticidade das personagens, mesmo que a verosimilhança seja apenas a da própria vida, passar pela vida e sentir que não se viveu, ou seguir um sonho e ter de o abandonar, ou a possibilidade de se redimir de um abandono, ou procurar recomeçar tudo de novo.

 

Benjamin não foge dos seus sentimentos, não foge do sofrimento que os acompanha, e mesmo que a sua vida guarde essa armadilha da solidão e do desencontro, na verdade ele vive-a no encontro e na comunicação. Aceita-a filosoficamente, aprende com as experiências e as pessoas que a vida lhe traz até à casa a que chama a sua casa.

Esta foi a grande aprendizagem transmitida pela mãe. Esta é a sua mãe e não poderia ter sido outra. Verá mais tarde uma fotografia de uma mulher lindíssima. Histórias paralelas que soam tristes e longínquas. Libertar-se-á de todas as histórias como uma doce despedida. 

 

Sim, se pudesse sintetizar este filme, escolheria: doces despedidas. São todas despedidas doces, nem demasiado dramáticas nem demasiado distantes: deixar-se ir.

 

Ainda há muito a dizer da descoberta deste filme. Mas fica para amanhã...

 

 

Ainda sobre Benjamin que alguns seus próximos lhe dizem ser muito especial... lembrou-me vagamente outra personagem, o Larry d' O Fio da Navalha de Somerset Maugham. Por outra razão que a razão desconhece. Ambos são especiais no sentido de diferentes na forma como vivem e interagem com os seus semelhantes, de uma forma sempre amável com todos mas autónoma, que não lhes pesa. Só que Larry é impermeável à influência de outros a não ser à de um mestre espiritual que conhece na Índia salvo erro, e Benjamin é completamente permeável às aprendizagens e às experiências. É aliás isso mesmo que o torna tão querido pelos outros. É isso também que o leva a entender os outros como se estivesse na sua pele, e aqui lembro-me de Acticus a explicar à filha de como se adquire a empatia, essa capacidade necessária para entender e conhecer os nossos semelhantes, aqui referindo-se a Boo.

 

Jogar com o tempo é sempre atractivo para criaturas que vivem obcecadas em travá-lo a todo o custo. A recente obsessão civilizacional, tudo controlar, o prazo de validade e a aparência de juventude. Será assim com a bailarina, até porque a carreira de uma bailarina é muito curta, como Benjamin lhe diz para a consolar. Quando se perde a linha nunca mais se recupera, é a frase terrível, mas uma manhã ela promete-lhe deixar de ter pena de si própria.

 

A obsessão pelo controle é muito português, sobretudo o controle de outras criaturas, penso até que essa obsessão estará na origem de muitos desvios de comportamento e de muita agressividade oculta nas relações interpessoais. Há demasiada interferência na vida uns dos outros. Mesmo nos locais de trabalho, sente-se esta necessidade de controlar outros, exercer o seu poder, e sobretudo mostrar a outros que se é poderoso ainda que numa ínfima escala ou que, no final de contas, se trate de um poder alucinado. 

A origem desta lógica doentia? A relação maternal, demasiado protectora? Não me parece que seja explicação suficiente, mas a protecção esconde realmente a necessidade de controlar a criança, não a deixa crescer, respirar à vontade, sufoca, cria dependências. É uma forma de impedir a autonomia e que dá sempre em revoltas estéreis ou rebeldias inconsequentes. Também esconde o desejo oculto de parar o tempo e manter-se no mesmo papel de poder sobre as criaturinhas.

Já me estou a desviar claramente do Benjamin mas não resisti a deixar-me levar por esta hipótese de explicação possível para a grande incidência de perturbações psiquiátricas na população portuguesa, o tema fascina-me. E esta ideia do controle não andará muito longe de uma explicação possível. Afinal, não é um dos países com mais telemóveis por habitante? E não vemos nós os nossos semelhantes pendurados ao telemóvel a toda a hora?

Outra razão que pode estar relacionada (ou não) com a necessidade de controle é ser um povo muito territorial, muito cioso do seu quinhão, da sua propriedade, mesmo que isso o impeça de se mover ou mesmo que isso o obrigue a voltar. Quando os entrevistam lá fora invariavelmente surge o termo saudade, como um sentir falta do seu lugar, da família, dos amigos.

 

Voltando ao Benjamin, amar a sua família e os amigos não o impede de dar a volta ao mundo e estar receptivo ao que a vida lhe traz, uma nova família e novos amigos (as pessoas que vêm morar nos quartos alugados, os colegas de trabalho no rebocador, a mulher inglesa que conhece num hotel em Murmansk). Aqui tudo parece natural, fluir, sem interrupções de sentido, nem fracturas na sua base, mesmo que os bem-amados partam, alguns subitamente, as tais doces despedidas. E mesmo nessa despedida tão difícil, porque surge da necessidade de libertar a mulher e a criança de mais um peso, um velho-criança, acontece porque tem de acontecer.

 

A construção da narrativa é também engenhosa, um narrador duplo: Benjamin no diário, e a filha, que o lê a uma mãe próxima da doce despedida final.

Talvez Benjamin me venha revelar mais alguma razão oculta para me ter impressionado e comovido. As palavras não são suficientes para as revelações mais interessantes. Sabemos isso mas ainda não inventámos melhor forma de comunicar. Bem, o cinema já é uma melhor forma de comunicar, não é?

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 22:03


Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.


Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D